Visigótico
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Escrita visigótica

As letras visigóticas são um tipo de escrita singular, que acompanhou todo o percurso medieval da Península Ibérica, desde o século V até ao século XII. A Escrita visigótica assistiu à fundação do reino de Portugal, mas, por motivos político-religiosos, foi substituída pela Carolina.

A escrita visigótica — o que é?

Aquilo a que chamo simplificadamente «letra visigótica» (ou «hispano-cristã») foi usado exclusivamente na Península Ibérica; não existiu em qualquer outra zona europeia. Começou a aparecer na cultura tardo-romana/cristã a partir do século iv, resultado de uma evolução local das letras romanas, com parcial integração do estilo bizantino. Esta Visigótica entrou em uso durante o domínio suevo e visigodo e perdurou, sempre limitada à Península Ibérica, até aos séculos XII - XIII, já em plena Idade Média.

Sobre a Minúscula visigótica existe alguma pesquisa paleográfica, já que foi usada em diversos manuscritos historicamente importantes.

Contudo, no que se refere à variante versal (as letras maiúsculas, feitas num estilo próprio), não consegui detectar muita informação. Neste campo, o mais exacto é Bernhard Bischoff, que na sua Paleografia do Latim precisa: «...Here even Capitalis existed alongside uncial and half-uncial, and later Roman cursive of the sixth or seventh centuries is preserved in numerous charters, slate tablets, and in several parchment fragments of diplomas...»

Curiosamente, também tem passado despercebido aos paleógrafos, soberanos desconhecedores da nomenclatura da Caligrafia e Tipografia, a existência de versaletes, também estes com o seu estilo próprio: letras mais quadradas e mais bold, muito mais pequenas do que as versais.

As imagens que acompanham este artigo também ilustram ocorrências da letra versal visigótica em ourivesaria (por exemplo, a famosa coroa votiva do rei visigodo Recesvinto), em estelas funerárias (por exemplo, as expostas no Museu de Mértola, Núcleo Visigótico, situado sobre as ruínas da basílica paleo­cristã), em inscrições mostradas no Museu de Beja (Igreja de Santo Amaro) e nos museus arqueológicos de Huelva, Córdova, Sevilha e Badajoz, assim como no Museu Monográfico de Conímbriga, um dos melhores museus arqueológicos de Portugal. As ocorrências mais tardias – em território hoje português – parecem ser as inscrições nas paredes do claustro do Mosteiro de Alcobaça.

O idioma falado no reino visigodo

Com o domínio visigodo, a cultura e a unidade política e administrativa romana romperam-se total e definitivamente. Mas os Visigodos, que em termos demográficos representavam uma pequena fracção da população, cedo abandonaram a sua cultura e romanizaram-se; fundiram-se com a população local, adoptaram o Cristianismo e assimilaram o latim vulgar.

A organização clerical preencheu, pelo menos parcialmente, o vácuo político-administrativo. No fim do período visigótico, Rodrigo, o último rei godo, lutou até 711 contra a invasão islâmica, defendendo a seu reino, e (supostamente) a religião cristã. Os governantes visigodos tiveram de fugir para o Norte da Península Ibérica; aí prepararam a Reconquista. Durante o domínio visigodo falava-se o latim vulgar, na variante hispano-românica.

Só no século v é que se assinala o início do romanço – cujo uso se prolonga até ao começo do século ix, época em que o latim desemboca numa multiplicidade de línguas. Numa fase de transição aparecem textos escritos nas diversas línguas românicas. Entre esses «falares intermediários», é o romanço lusitânico que se instala no território hoje português; dará origem à lingua portuguesa. Formas das versais visigóticas

Uma parte dos poucos vestígios paleocristãos/visigóticos no Sul de Portugal conserva-se no Museu de Mértola, em cujo Núcleo Visigótico se pode estudar uma rara colecção de lápides funerárias, inscritas com formas arcaicas do alfabeto versal visigótico. Aqui, as ruínas de uma basílica paleo­cristã foram preservadas pelo Campo Arqueológico de Mértola, sob a direcção do distinto arqueólogo e autor Cláudio Torres.

Neste grupo destacam-se as estelas inscritas em língua grega, datáveis para o século vi. O conjunto de lápides epigrafadas em grego testemunha que em Myrtilis (designação latina de Mértola) existiu uma pequena comunidade originária do Mediterrâneo oriental, com um dos seus membros nascido na Líbia.

Seriam famílias ligadas ao comércio e possivelmente relacionadas com movimentos cristãos de carácter monofisita. Aianes, Antónia, Festelus, Amanda, Fortunata ou Rufina – são alguns dos nomes que podemos ler nas lápides – foram contemporâneos de Andreas, o regente do coro da basílica.

Usando como referência as inscrições de lápides funerárias cristãs fotografadas em Mértola, Mérida, Huelva, Badajoz e Sevilha, definimos as formas mais características deste alfabeto:

  • As letras, todas versais, são condensadas.
  • A condensação aumentará no decorrer dos séculos.
  • Muitas letras mostram forma rectangular.
  • O D epigráfico tem forma quase triangular.
  • O L é bastantes vezes prolongado com um ascendente.
  • O X tem a forma de uma cruz inclinada.
  • O B e o R têm muitas vezes a pança separada do elemento contíguo.
  • O K tem uma forma peculiar, os elementos diagonais são curtos. Influência grega?
  • O A tem um remate no vértice; umas vezes tem barra quebrada, outras vezes não tem barra.
  • O P apresenta uma pança pequena, colocada no terço superior da haste. Existe uma forma do H como se fosse uma minúscula muito alta.
  • O E é rectangular – ou tem a forma redonda, característica das Unciais.
  • O F, e por vezes o E, se lhes omitimos o travesso inferior, parecem um T alargado, e o braço esquerdo termina frequentemente com uma curvatura pronunciada («corno»).
  • O S aparece muitas vezes inclinado. É mais plano que o modelo romano, mais delgado, a sua curva superior pequena, a inferior é maior. Este modelo geral tem excepções.
  • O elemento diagonal do N é quase sempre mais curto do que nas versões romanas.
  • O V=U parece um Y moderno, composto por uma haste recta e outra oblíqua ou curva, à esquerda.
Influência das Unciais?

Nas inscrições em pedra dos primeiros séculos, as serifas são mais finas do que as serifas «patudas» que mais tarde aparecem nos códices manuscritos. Existem muitas ligaduras (TI, CO, etc.) realizadas com letras sobrepostas.

As abreviaturas não seguem um padrão geral. De modo geral, temos desta letra frequentemente uma impressão semelhante à que nos assalta quando admiramos a Arquitectura tardo-romana ou românica: pretendeu-se copiar um modelo romano cuja função que já não era percebida.

A imitação resulta frequentemente numa caricatura do padrão clássico. Apesar de ter nascido como um abastardamento das letras clássicas romanas, a letra versal visigótica mostrou na sua fase madura um certo vigor e originalidade...

A fase tardia das versais

Em contraste com as primeiras manifestações da Versal visigótica epigráfica, que vemos nas lápides funerárias paleocristãs, a versão tardia, que abunda nos manuscritos medievais, é muito mais condensada, as formas são mais refinadas e elegantes – e observamos uma quantidade espantosa de letras sobrepostas e de ligaduras.

Na fase final, a letra versal visigótica apresenta ornamentos «barrocos», e terá, eventualmente, integrado alguns elementos da letra uncial. Deste modo, observamos um M redondo (usado em paralelo com um m «direito») e também o E perde por vezes a sua forma rectangular, adoptando a forma curva do e uncial. Um dos fenómenos mais curiosos é que a Versal visigótica sobrevive à Minúscula visigótica.

Em vários manuscritos escritos com minúsculas góticas (a caligrafia que acaba por substituir tanto a Visigótica como a Carolina), continuamos a verificar a existência de títulos e subtítulos grafados com a Versal visigótica – um apego a uma tradição secular de usar a littera toletana...

A Minúscula visigótica

A grande diversidade de escritas que existiram por toda a Europa resultou das variações regionais sofridas pela Minúscula romana.

A designação Minúscula visigótica é pelo menos tão errada como Minúscula carolina, pois ambas as grafias incluem maiúsculas.

Cursiva e redonda

A escrita visigótica praticou-se em duas versões: cursiva e redonda. A forma cursiva foi usada em documentos como actas de doação, presúria, etc.; a redonda (melhor designada caligráfica ou librária), que integrou elementos da Uncial e Semi-uncial (página 92), aparece sobretudo nos códices ).

A Visigótica atingiu a sua forma mais bela e solene como caligrafia librária («belle et soignée», como escreveu Franz Steffens na sua Paléographie latine, publicada em 1910); a variante cursiva é irregular e cheia de ligaduras.

A Visigótica caracteriza-se por ter ascendentes e descendentes muito longos – em relação ao corpo da letra, que é de dimensões reduzidas. As suas letras distintivas são: o a aberto, o g estreito, o t de forma «beta invertido», o z designado em espanhol de copetudo e o et em ligadura do e com o t. Possui um sistema de abreviaturas diferente daquele que se imporá com a Carolina; no texto corrido não se utilizaram abreviaturas por letras sobrescritas e usaram-se profusamente modificações literais.

A Visigótica foi escrita, no início, com cálamo; os traços verticais, horizontais e oblíquos são relativamente uniformes, não mostrando grande contraste entre elementos grossos e finos nem fracturas nas letras.

Dois importantes códices grafados com esta letra

Códice Albeldense

O Códice Vigilano (Albeldensis) ou Códice Albeldense (Chronicon Albeldense) é uma obra capital do scriptorium do mosteiro de San Martín de Albelda, centro cultural do reino de Pamplona. Esta compilação contém actas de concílios, decretos pontifícios, um calendário moçárabe e vários tratados. Nas páginas finais consta o nome do mosteiro e a data em que se terminou: 976.

O Codex Vigilanus, abreviação do nome completo latim Codex Conciliorum Albeldensis seu Vigilanus, é uma compilação de vários documentos históricos do período visigótico na Península Ibérica que se tornou fundamental para o estudo do Reino das Astúrias e do período da Reconquista.

As ilustrações são de extraordinária riqueza, tanto pelo número de fólios iluminados como pela arte das miniaturas no estilo riojano.

Um bom exemplo de Escrita visigótica: Códice Albeldense.
De cima para baixo: Versais, versaletes e minúsculas.

Códice Emilianense 46

Outro belo exemplo de escrita visigótica é o Códice Emilianense 46 da Real Academia de la Historia, que contém o primeiro dicionário enciclopédico da Península Ibérica. Acabou de ser copiado (a partir do Códice Vigilano) em 964, no scriptorium de San Millán de la Cogolla (Rioja).

Difusão

O primeiro documento escrito em Escrita Visigótica, com datação, é de 774, em Espanha; de 882, em Portugal.

Os principais centros de difusão foram Toledo (capital do reino visigodo), o Mosteiro de Santo Domingo de Silos (Burgos), o Mosteiro do Lorvão (perto de Coimbra) e o Mosteiro de Leão.

A substituição pela Carolina

O declínio desta letra singular começou no século XI, por intolerância e repressão religiosa. O Sínodo de Léon, concílio realizado em 1091 sob a presidência do cardeal Rainer (mais tarde, papa Pascal II), proibiu a littera toletana (a Visigótica) na escrita de livros litúrgicos, como meio de supressão do ritual moçárabe, que nessa altura começou a ser substituído pelo ritual romano da reforma gregoriana.

Decreta-se que a toletana seja substituída pela littera gallica (= a escrita carolina), mas a toletana ainda consegue sobreviver algum tempo.

O afastamento da Visigótica e a penetração da Carolina devem-se à reforma monástica cluniacense ) e à vinda para Portucale de monges, militares e nobres de França. Neste reino emergente, os scriptoria das sés de Braga e de Coimbra foram no século xi os principais centros onde a Visigótica se escreveu. O uso prolongou-se pelo século XII e alastrou a centros como o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Os Beatus hispânicos

Os manuscritos hispânicos designados por Beatus são outra fonte essencial para o estudo da Escrita visigótica nas suas expressões tardias. O título genérico Beatus designa o Comentário ao Apocalipse de São João pelo monge Beato, que viveu no vale de Liébana (daí «Beato de Liébana»). Os códices denominados Beatus são cópias executadas em diversos scriptoria dos antigos mosteiros. Não se conservaram todos os códices; dos 34 que hoje existem, 25 estão mais ou menos completos. São apreciados como importantes obras de arte. ¶

A fonte digital «Visigótica»

http://tipografos.net/fonts/visigotica.html


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