arqueo.org — o Portal da Arqueologia Ibérica, sem obscurantismo e religiosidade
200

Sites do mesmo autor:

Pandemia de Gripe

Tipografia

Turismo na Natureza

Villa de Milreu (Estói, Algarve)

As ruínas que hoje se podem visitar apresentam um complexo edificado do século III d. C., constituído por uma casa senhorial de grandes dimensões, instalações agrícolas, um balneário e um templo.

Visita aconselhada: três ou quatro horas.
Milreu
Ruínas do «Santuário»

Em Milreu, muitas das divisões do peristilo, já escavadas por veja páginaEstácio da Veiga, foram recobertas no início deste século, doutras conservam-se apenas as banquetas da fundação.

Escavações recentes puseram a descoberto na sala oeste do peristilo, precisamente onde os muros de uma casa (provavelmente do século XVIII) com torres de canto cobrem as ruínas romanas, as paredes limítrofes do peristilo, bem como mais divisões com mosaicos pavimentares.

Milreu
Mosaico com representações de peixes.

O chão do peristilo é formado por pequenas tesselas com desenho geométrico e um friso com representações de peixes. Também nas divisões contíguas se pode comprovar a existência de pavimentos de veja páginamosaicos com formas geométricas, os quais, no entanto, devido ao seu mau estado de conservação, foram recobertos de areia ou levantados para serem consolidados no veja páginaMuseu de Conímbriga.

É surpreendente em Milreu a diversidade de formas geométricas existentes: losangos, octógonos, fitas entrançadas, faixas de óvulos, arcos, nós entrançados, gavinhas, flores e desenhos de tabuleiro de xadrez.

No lado leste do peristilo, a sul, junto da grande sala de refeições, alcançam-se as termas, ou seja, um grupo de grandes divisões que serviam aos banhos. Como é costume em termas romanas, também aqui se reconhece a sequência de apodyterium, frigidarium e caldarium. Deve poder designar-se de apodyterium a divisória com bancos formados por filas de arcos que a contornam. Os nichos em forma de arco e os bancos serviam, eventualmente, para neles serem colocadas vestimentas e para a habitual massagem e unção após o banho.

O frigidarium é aqui uma grande sala com uma piscina circular do lado norte. Esta estava revestida de placas de mármore e era enchida de água fria para o arrefecimento após o banho quente.

Milreu
Piscina do frigidarium, com representações de peixes.

O tepidarium e o caldarium são duas divisões contíguas com aquecimento pavimentar. Da construção deste aquecimento (hypocaustum) restam hoje apenas arranques de pequenos arcos em tijolo e o chão da câmara de ar quente que se encontra a um nível mais baixo.

No lado norte das termas conservou-se o praefurnium, no qual se fazia o lume e sobre o qual se encontrava outrora a caldeira para a água quente. Todas as divisões das termas estavam decoradas com mosaicos. Um exemplo especialmente bonito é a pequena piscina do lado sul - provavelmente um banho para mulheres - que é revestida de mosaicos com representações de peixes, aqui desenhados exageradamente gordos, pois tomou-se em consideração o aspecto que oferecem através da água.

Milreu
Mosaico com representações de peixes.
Bustos imperiais

Durante a escavação da villa apareceram restos de esculturas em mármore, encontrando-se entre elas três bem conservados bustos imperiais, que são excepcionais na decoração de uma villa: a imperatriz Agripina (Séc. I d.c.), o imperador Adriano (Séc. II d.c.) e o imperador Galieno (Séc. III d.c.).

Milreu
Busto de Agripina, conservado no Museu de Faro.

Outrora tinha-se acesso à villa através de uma rua, da qual se conservam in situ grandes placas de pedra. Na época romana tardia, provavelmente no final do século III d.c., acrescentaram-se à entrada duas pequenas pias de água que, na sua disposição simétrica, davam uma acentuação especial ao vestíbulo.

O santuário

De especial destaque para uma veja páginavilla romana é o grande recinto a sul da rua, cuja construção central de tijolos com abside circular ainda hoje sobressai acima das ruínas e é característica para as ruínas de Milreu.

Trata-se de um santuário aquático (ninfeu) de época romana tardia, cuja forma se assemelha a um templo de galeria. A rua é estreitada, na entrada do recinto, por uma pia de água de forma absidal, que chama a atenção do visitante para o culto da água e que é decorada com mosaicos na parte frontal e no seu interior.

O santuário é cercado por um muro; no meio ergue-se o podium com a cella, que outrora era circundada por um pórtico. O interior da cella estava decorado com placas de mármore multicolores.

No centro dela encontrava-se em tempos uma pia de água (assinalada na planta de veja páginaEstácio da Veiga) e a abside circular deve ter tido uma estátua.

Os restos que se conservaram da abóbada e da abside com a cornija assente sobre consolas, imaginando-se as colunas de mármore e as placas de balaustrada da galeria exterior, dão uma ideia do aspecto do edifício, que se parece com templos galo-romanos.

Junto à escada do podium conservam-se mosaicos parietais com representações de peixes, que são extremamente vistosos e que outrora cercavam todo o podium.

Sendo uma grande casa agrícola, Milreu foi, simultaneamente, uma residência faustosa onde, com os seus jardins, termas, templo e artes decorativas, o proprietário poderia expressar todos os valores de uma romanidade que partilhava.

Como Milreu, outros grandes proprietários de villae algarvias rodeiam-se de elementos artísticos importados de oficinas longínquas como obras escultóricas ou mosaicos. A produção em larga escala de preparados piscícolas e a sua exportação permite a obtenção de grandes riquezas que sustentam a grandiosidade das villae algarvias.

As dezenas de sítios com tanques de preparados piscícolas e fornos de ânforas onde se produziam os contentores destinados à exportação, provam a importância que a exploração dos recursos marinhos assumiu no Algarve romano. Há, todavia, villae romanas no interior mais vocacionadas para a exploração agrícola e exploração mineira que, desde os inícios do primeiro milénio a C., atraíram os mais variados povos à região. Com efeito, os vestígios arqueológicos de mineração romana abundam no Algarve interior, tal como os de preparados piscícolas marcam todo o litoral.

Durante o domínio dos visigodos, este edifício serviu de igreja. Testemunhos disso são a piscina baptismal e um pequeno mausoléu, construídos no pátio, junto ao podium.

Bibliografia

Hauschild, Theodor, A villa romana de Milreu, Estói (Algarve), "Arqueologia", Nº 9, Porto, 1984, pp. 94-104.

Hauschild, Theodor, O edifício de culto do complexo de ruínas romanas perto de Estói, na província da Lusitania, "Arqueologia e História in memoriam Prof. Doutor D. Fernando de Almeida", Associação dos Arqueólogos Portugueses, série 10, 1-2 (1), Lisboa, 1984-88, pp. 121-150.

Visita

Por explorar encontram-se as construções iniciais, do século I d. C. Vista geral da área intervencionada Ábside do templo Quanto à área residencial, hoje visitável, ela aproveitou parte das construções da anterior villa e organiza-se em torno de um peristilo central - com 22 colunas -, que rodeia um pátio aberto com jardim e respectivo tanque de água. A villa foi embelezada com mosaicos, nomeadamente a nascente do peristilo, com a representação de fauna marinha.

Achados de épocas posteriores sublinham uma longa tradição de Milreu como local de culto, demostrando-se que, a partir do século VI d. C., o edifício pagão foi transformado em igreja cristã. Este recinto foi também utilizado como cemitério em período islâmico.

Só quando, na primeira metade do século X, as abóbadas ruíram, o sítio de Milreu foi provavelmente abandonado.

Mas, nos inícios do século XVI, o local ganhou nova vida, quando sobre as ruínas há muito abandonadas foi erguida uma casa - único e precioso exemplar algarvio desse tipo de arquitectura civil com contrafortes cilíndricos.

Milreu
Ruínas do «Santuário»
Centro de Acolhimento e Interpretação

O Centro de Acolhimento e Interpretação possui uma exposição permanente sobre o Sitio. O percurso de visita encontra-se sinalizado.

Responsável — Rui Parreira, Direcção Regional de Faro (IPPAR)

Horário Verão (Abril a Setembro) 09.30h – 12.30h 14.00h – 18.00h Inverno (Outubro a Março) 09.30h – 12.30h 14.00h – 17.00h Encerra à segunda-feira e nos feriados de Domingo de Páscoa, 1 de Maio e 25 de Dezembro Ingresso Normal: € 2 Jovens (15 a 25 anos) e reformados: € 1 Portadores do Cartão Jovem: € 0.8 Crianças até aos 14 anos: gratuito.

Domingos e feriados até às 12h30: gratuito. Telefone +351 289 997 823 Fax +351 289 803 631

E-mail drf.ippar@ippar.pt

Visitas Guiadas — A pedido

Loja — Publicações diversas, postais, materiais de divulgação.

Acesso a Deficientes: O Centro de Acolhimento possui rampas de acesso, assim como em determinadas zonas da própria visita. Contudo, existem algumas escadas que poderão dificultar a passagem dos visitantes que se desloquem em cadeiras de rodas.

O acesso faz-se pela estrada EN 2 Faro - S. Brás de Alportel, junto ao nó de Estói do IP 1 - Via do Infante, a 9 km de Faro.

Na localidade de Coiro da Burra vira-se em direcção a Estói.

Atravessando a ponte sobre o Rio Seco encontra-se, pouco depois, à esquerda, a entrada para as ruínas.

Transportes públicos: carreira da empresa EVA, Faro-Estói. Parque de estacionamento para ligeiros e autocarros.

Espólio

Algumas peças importantes de Milreu estão no veja páginaMuseu de Arqueologia de Faro

Glossário

m
 
ss

topo da páginaTopo da página

Quer usar este texto em qualquer trabalho jornalístico, universitário ou científico? Escreva um email a Paulo Heitlinger.

copyright by algarvivo.com/comunicacao