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Júlio César (100 – 44 a.n.E.)

Gaius Julius Caesar foi um líder militar e político da República. As suas conquistas na Gália estenderam o domínio romano até o Oceano Atlântico: um feito de consequências dramáticas na história da Europa.

No fim da vida, lutou numa guerra civil com a facção conservadora do senado romano, cujo líder era Pompeu. Depois da derrota dos optimates, tornou-se ditador (no conceito romano do termo) vitalício e iniciou uma série de reformas administrativas e económicas em Roma.

O seu assassinato nos Idos de Março por um grupo de senadores travou o seu trabalho e abriu caminho a uma instabilidade política que viria a culminar no fim da República e início do Império Romano.

Os feitos militares de César são conhecidos através do seu próprio punho e de relatos de autores como Suetónio e Plutarco.

César nasceu em Roma no seio de uma antiga família de patrícios chamada Juliae, de acordo com a convenção romana de nomes. Enquanto jovem, César viveu no Subura, o bairro dos emigrantes pobres de Roma.

Os Julii Caesarii, embora aristocratas, não eram ricos para os padrões da aristocracia romana da época e por este motivo, nem o seu pai nem o seu avô atingiram cargos proeminentes na República. A sua tia paterna Júlia casou com o talentoso general e reformador Caio Mário, líder da facção populista do senado, os Populares, por oposição aos Optimates (conservadores). Para o fim da vida de Mário, as disputas internas entre as duas facções haviam chegado ao ponto de ruptura. Em 86 a.C. rebentou uma guerra civil interna, cujo resultado a longo prazo foi a ditadura (conceito romano do termo) de Lúcio Cornélio Sulla.

César estava afecto ao lado derrotado de Mário por laços familiares: não só era seu sobrinho, como era também casado com Cornélia Cinnila, filha de Lúcio Cornélio Cinna, aliado de Mário e inimigo pessoal de Sulla. A sua situação não era portanto das mais brilhantes. Sulla ordenou o seu divórcio de Cornélia, mas César recusou abandonar a jovem mulher e fugiu de Roma para evitar as perseguições. O ditador ficou desagradado com o desafio mostrado pelo jovem de vinte anos e mandou caçadores de prémios atrás dele.

Foi a intervenção da sua família e amigos influentes que o salvou da proscrição e execução. Mas apesar do perdão de Sulla, César decide não ficar em Roma, partindo para a Ásia para realizar o seu serviço militar. Durante a campanha ao serviço de Lúcio Licínio Lúculo na Cilícia, César distinguiu-se pela sua bravura em combate e capacidades de liderança.

Depois da morte de Sulla em 78 a.C., César regressa a Roma e inicia a carreira como advogado no fórum romano e torna-se conhecido pela sua brilhante oratória. As suas principais vítimas serão os políticos corruptos e culpados de extorsão. Com o perfeicionismo que sempre o caracterizou, César não estava contente consigo e viajou para Rodes para estudar Filosofia e Retórica com o gramático Apollonius Molo.

De regresso à liberdade, organizou uma força naval, capturou o refúgio dos piratas e ordenou a sua crucificação. Em 69 a.C., Cornélia morre ao dar à luz um rapaz nato-morto e pouco depois César perde a tia Júlia, viúva de Mário, de quem era muito próximo.

Ao contrário do que era costume, César insistiu em organizar funerais públicos para ambas, com direito a eulogias proferidas da rostra. O funeral de Júlia foi repleto de conotações políticas, visto que César fez questão em incluir a máscara funerária de Caio Mário na procissão, a primeira contestação pública das leis de proscrição de Sulla da década anterior. E apesar de ser público o afecto de César pelas duas mulheres (cf. Suetonius), houve quem interpretasse a atitude como propaganda para as eleições que se avizinhavam para o cargo de questor.

César foi eleito questor pela Assembleia do Povo em 69 a.C., com trinta anos de idade, como estipulava o cursus honorum romano. No sorteio subsequente, calhou-lhe um cargo na província romana da Hispania Ulterior, situada mais ou menos nos modernos Portugal e sul de Espanha.

No regresso a Roma, César prosseguiu a carreira como advogado até ser eleito edil em 65 a.C., o primeiro cargo do cursus honorum a deter imperium. As funções de um edil podem ser equiparadas às de um moderno presidente da câmara municipal e incluíam a regulação das construções, do trânsito, do comércio e outros aspectos da vida diária.

Mas o cargo poderia ser um presente envenenado, pois incluía a organização dos jogos no Circus maximus o que, dado o limitado orçamento público, exigia a aplicação dos fundos privados do edil. Isto era especialmente verdade no caso de César, que pretendia realizar jogos memoráveis para impulsionar a carreira política. E de facto aplicou todo o seu engenho para o conseguir, chegando até a desviar o curso do Tibre para uma representação no circo, mas acabou o ano com dívidas na ordem das várias centenas de talentos de ouro (o equivalente a vários milhões de euros).

No entanto, o sucesso como edil foi uma ajuda importante na sua eleição para pontifex maximus em 63 a.C., depois da morte de Quintus Caecilius Metellus Pius. O cargo significava uma nova casa no Forum, a Domus Publica, a responsabilidade por toda a vida religiosa de Roma e a custódia das virgens vestais. Para a vida pessoal de César, também significava o alívio do fim das dívidas.

A sua estreia como pontifex maximus foi marcada por um escândalo. Depois da morte de Cornélia, César casara com Pompeia, uma das netas de Sulla. Como mulher do pontifex maximus e uma das mais importantes matronas de Roma, Pompeia era responsável pela organização dos ritos da Bona Dea em Dezembro, exclusivos às mulheres e considerados sagrados.

Mas durante as celebrações, Publius Clodius Pulcher (Públio Clódio Pulcro) conseguiu entrar na casa disfarçado de mulher. Em resposta a este sacrilégio, do qual não foi provavelmente culpada, Pompeia recebeu uma ordem de divórcio. César admitiu publicamente que não a considerava responsável, mas justificou a sua acção com a célebre máxima: A mulher de César, tal como César, tem que estar acima de qualquer suspeita. Em 63 a.C. César foi eleito pretor e Marco Túlio Cicero cônsul sénior na Assembleia das Centúrias. Foi um ano particularmente difícil não só para César, mas também para a República de Roma. Durante o seu consulado, Cícero revelou uma conspiração para destronar os magistrados eleitos liderada por Lúcio Sérgio Catilina, um aristocrata patrício frustrado pela sua falta de sucesso político. O resultado foi a execução sem julgamento de cinco proeminentes romanos aliados de Catilina. Isto era um anátema para a sociedade romana, que raramente executava os seus cidadãos e quando o fazia era apenas depois de complicados procedimentos judiciais. César opôs-se a esta medida com toda a sua oratória, mas acabou suplantado pela insistência de Marcus Porcius Cato, o jovem (Marco Pórcio Catão) e os cinco homens acabaram executados no próprio dia. Foi também nesta dramática reunião do senado que o caso amoroso de César com Servília Cepionis foi trazido a público. Os opositores políticos de César acusaram-no na altura de fazer parte da conspiração de Catilina, o que nunca foi provado nem prejudicou grandemente a sua carreira. Depois do seu complicado ano como pretor, César foi nomeado governador da Hispânia Ulterior.

O primeiro triunvirato e as guerras na Gália

Em 59 a.C. César foi eleito cônsul sénior da República de Roma pela Assembleia das Centúrias. Para seu colega, foi eleito o seu inimigo político, Marcus Calpurnius Bibulus, membro da facção conservadora e amigo de Marcus Porcius Cato. O primeiro acto de Bibulus como cônsul foi retirar-se de toda a vida política com o pretexto de se dedicar à observação dos céus em busca de presságios. Esta decisão, aparentemente de espírito religioso, era destinada a fazer difícil a vida política de César, mas este encontrou aliados onde menos se esperava. Nesse mesmo ano, Gnaeus Pompeius Magnus (Pompeu o Grande) encontrava-se em disputa aberta com o senado por causa do direito dos seus veteranos a terras de cultivo. Ao mesmo tempo, o antigo cônsul Marcus Licinius Crassus, alegadamente o homem mais rico de Roma, encontrava-se também em dificuldades para obter o tão desejado comando na guerra contra o Império Persa. César precisava do dinheiro de Crassus e da influência e popularidade de Pompeu e assim se formou uma aliança informal.

Os historiadores designam esta união como o primeiro triunvirato, ou o governo dos três homens. Para confirmar a aliança, Pompeu casou com Júlia Caesaris, a única filha de César, e apesar da diferença de idades e ambiente social o casamento provou ser um sucesso. Vercingétorix se rende a César.

De Bello Gallico

Depois de um ano difícil como cônsul, César recebeu poderes proconsulares para governar as províncias da Gália e Illyricum por cinco anos. Um governo pacífico não se adequava no entanto à sua personalidade e César iniciou as Guerras gálicas (58 a.C.- 49 a.C.), onde conquistou a Gália, partes da Germania e fez uma breve visita às ilhas britânicas.

Entre os seus legados contavam-se os primos Lucius Julius César e Marco António, Titus Labienus (Tito Labieno) e Quintus Tullius Cicero (Quinto Túlio Cícero) (irmão mais novo de Cícero), todos homens que haveriam de se mostrar personagens importantes nos anos seguintes.

César derrotou povos como os helvéticos em 58 a.C., a confederação belga e os nérvios em 57 a.C. e os venécios em 56 a.C.. Finalmente em 52 a.C., César venceu uma confederação de tribos gálicas lideradas por Vercingétorix na batalha de Alésia.

As suas crónicas pessoais da campanha ficam registadas nos seus Comentários (De Bello Gallico).

De acordo com Plutarco, a campanha resultou em 800 cidades capituladas, 300 tribos submetidas, um milhão de gauleses reduzidos à escravatura e outros três milhões mortos nos campos de batalha.

Mas apesar dos seus sucessos e dos benefícios que a conquista da Gália trouxe a Roma, César continuava impopular entre os seus pares, em particular junto dos conservadores que receavam a sua ambição. Em 55 a.C., os seus aliados Pompeu e Crassus foram eleitos cônsules e honraram o acordo estabelecido com César ao prolongarem o proconsulado por mais cinco anos.

No ano seguinte, Júlia Caesaris morreu em trabalho de parto, deixando pai e marido cobertos de desgosto. Crassus foi morto em 53 a.C. durante a desastrosa campanha da Pérsia, condenada desde o início por péssima planificação. Sem Crassus e Júlia, Pompeu aproximou-se da facção conservadora.

Ainda na Gália, César procurou assegurar a aliança com Pompeu propondo-lhe casamento com uma das sobrinhas, mas este preferiu casar-se de novo com Cornélia Metella, filha de Metellus Scipio (Cipião Metelo), um dos maiores inimigos de César. [editar] Guerra civil Em 50 a.C., o senado liderado por Catão ordenou o regresso de César e a desmobilização de todas as suas legiões romanas, ao mesmo tempo que o proibia de se candidatar ao segundo cargo de cônsul in absentia.

César sabia que, sem o seu imperium de procônsul e o poder das suas legiões seria processado e eliminado da vida política assim que regressasse a Roma. Por este motivo, César recusou obedecer e atravessou o rio Rubicão, no Norte de Itália, a 10 de Janeiro de 49 a.C., dizendo, segundo a lenda, "alea jacta est" (a sorte está lançada). Era o primeiro acto da guerra civil que haveria de pôr fim ao normal funcionamento das instituições políticas da República.

Os Optimates, incluíndo Metellus Scipio e Cato o jovem, após muitos esforços para convencer Pompeu a ajudá-los em sua investida contra César, fugiram para Sul, sem saberem que César era acompanhado apenas pela sua décima legião. César perseguiu Pompeu até ao porto de Brundisium no Sul de Itália, na esperança de poder reactar a sua aliança, mas este fugiu para a Grécia com os seus apoiantes. Então, César dirige-se para a Hispânia numa marcha forçada de apenas 27 dias, para derrotar os tenentes de Pompeu nessa poderosa província.

Só quando considera a rectaguarda segura, e depois de organizar as instituições políticas em Roma, que caíra na anarquia, é que César se dirige para a Grécia. A 10 de Julho de 48 a.C., Pompeu é derrotado na batalha de Dyrrhachium mas por uma escassa margem, conseguindo fugir para lutar outro dia com quase todo o seu exército. Após esse acontecimento, ocorre uma violenta batalha, onde César é derrotado e foge para uma região distante.

Cada vez mais longe de água e provisões, César se vê encurralado por Pompeu, que por saber que basta aguardar as provisões de César acabarem para os seus soldados desertarem, não ataca. Mas Catão tem uma série de desntendimentos com Pompeu por causa dos altos custos dessa guerra, se vê obrigado a iniciar um ataque contra César.

O encontro final dá-se pouco tempo depois, a 9 de Agosto, na batalha de Farsalo. César conquista uma vitória estrondosa, a partir de uma arriscada manobra que consistia em enfraquecer as legiões dianteiras para dar auxílio à cavalaria contra as cavalarias de Pompeu. Mas mais uma vez os inimigos políticos conseguiriam fugir: Pompeu para o Egipto, Metellus Scipio e Cato para o Norte de África.

De regresso a Roma, é nomeado ditador romano, com Marco António como Magister equestris, e é eleito cônsul pela segunda vez. Em 47 a.C., César dirigiu-se ao Egipto em busca de Pompeu, apenas para descobrir que o velho aliado e inimigo havia sido assassinado no ano anterior. Ao saber da sua sorte, César ficou destroçado pela perda e por ter perdido a oportunidade de oferecer-lhe o seu perdão. Talvez devido a isto, César decidiu intervir na política egípcia e substituiu o rei Ptolomeu XIII pela sua irmã Cleópatra, que já tinha a dignidade de faraó. Durante a sua estada, César envolveu-se com a rainha do Egipto e da relação nasceu o seu único filho, o futuro Ptolomeu XV do Egipto (Cesarion).

Foi ainda durante este período que César sofreu o seu primeiro ataque de epilepsia. Depois das campanhas do Egipto, César rumou ao Médio Oriente, onde derrotou o rei Farnaces do Bósforo na batalha de Zela; sua vitória foi tão arrasadora que ele comemorou com a célebre frase Veni, vidi, vici (Vim, vi, venci).

Depois, foi para o Norte de África para atacar os líderes da facção conservadora aí entrincheirados. Na batalha de Tapso em 46 a.C., César somou mais uma vitória e viu desaparecerem dois dos seus piores inimigos, Metellus Scipio e Cato, o jovem. Mas os filhos de Pompeu Gnaeus and Sextus Pompeius, bem como o seu antigo comandante de cavalaria Titus Labienus, conseguiram fugir para a Hispânia. César não hesitou em perseguí-los e em Março de 45 a.C. derrota o último foco de oposição na batalha de Munda. Com todo o mundo romano sob o seu controlo, César regressa a Roma onde é nomeado ditador vitalício e cognominado Pater Patriae, pai da pátria. Então começa uma maratona de reformas administrativas que incluem a mudança para o calendário juliano.

O mês Quintilis é rebaptizado como Julius em sua honra e continua, nos dias de hoje, a ser conhecido como Julho. Em Fevereiro, Marco António oferece um diadema, símbolo de um rei, a César, que o rejeita com veemência. No entanto, o episódio valeu-lhe a desconfiança dos seus pares que começaram a recear a sua ambição. Caricatura do assassinato de Júlio César.

Pouco depois, César é assassinado numa reunião do senado, nos Idos de Março (15 de Março) de 44 a.C., por um grupo de senadores que acreditavam agir em defesa da República. Entre eles contavam-se os seus antigos protegidos Marcus Junius Brutus e Gaius Longinus Cassius.

Depois da morte de César, rebentou uma luta pelo poder entre o seu sobrinho-neto César Augusto, adoptado no testamento, e Marco António, que haveria de resultar na queda da República e na fundação do Império romano.

A obra escrita que chega aos nossos dias coloca César entre os grandes mestres da língua latina. Os seus trabalhos incluem: De bello Gallico – Comentários sobre as campanhas da Gália De bello Civili – Comentários sobre a recusa de obedecer ao senado e a guerra civil Estas narrativas, aparentemente simples e directas, são na realidade sofisticadas manobras de propaganda política dirigidas à classe média de Roma.

Glossário

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