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Turismo na Natureza

Ânforas

Vasos de origem grega, de forma geralmente ovóide, confeccionados em barro ou terracota, com duas asas simétricas, geralmente terminado na sua parte inferior por uma ponta ou um pé estreito.

Serviam para o transporte e armazenamento de géneros de consumo, tal como a salmoura.

Era usada pelos gregos e romanos para conter líquidos, especialmente vinho.

Servia também para conter azeite, frutos secos, mel, derivados do vinho, cereais ou mesmo água.

As ânforas eramvasos destinados ao transporte de mercadorias para a troca, no sentido amplo do termo, incluindo-se aí práticas ligadas à reciprocidade, à redistribuição ou ao comércio (Peacock & Williams 1986:54-66).

Há autores que pensam que as trocas de mercadorias em ânforas sejam provas claras do facto que a economia romana era monetária e ligada ao mercado (Hedeager 1987:126).

Paterson (1988:243-4) ressalta que comerciantes privados (negotiatores e nauicularii) controlavam o comércio de azeite e de vinho e considera que "a oganização do Estado utilizava largamente os mercadores privados e pressupunha, mesmo, a existência de uma estrutura complexa de comerciantes privados".

«As ânforas, utilizadas para o comércio a longa distância, sãoo o testemunho mais eloquente da existência de uma economia desenvolvida de mercado no mundo romano».

Há dados que demonstram que a exportação desses produtos em ânforas prosperava já muito antes da intervenção oficial do Estado e, assim, fora da esfera da autoridade geográfica e legal de Roma, e isto desde o período republicano.

Os romanos intervieram, por diversas vezes, militarmente, para proteger os interesses dos mercadores romanos ou itálicos fora do território legalmente romano (como, por exemplo, no caso da Guerra de Jugurta).

A descoberta de ânforas romanas fora do território romano, e até em território inimigo, demonstra a importância dos mercadores privados e das forças de mercado fora do controle do Estado.

Entretanto, isto não nos permite resolver a questão relativa à importância da política do Estado no que se refere ao abastecimento controlado ou influenciado diretamente pelo Estado. O dilema que se nos depara torna-se mais claro quando estudamos as fontes antigas a respeito.

Tácito (Ann.1.9.7) descreveu as ações de Augusto com as seguintes palavras: "O Império estava protegido pelo Mar Oceano e por rios longínquos; as legiões, províncias, frotas, tudo se interligava; havia a lei para os cidadãos, respeito para com os aliados; a cidade foi embelezada magnificamente. Poucas vezes recorreu-se ... força e, ainda nestes casos, apenas para manter a tranquilidade geral" (cf. Plínio NH 14,1,2, sobre o commercium rerum e sobre a societas pacis).

Classificação

Para uma classificação deste tipo de recipiente, existem diversos catálogos (Dressel, Haltern, Lamboglia, Benoit, Gauloise, etc), de terminologia complexa e por vezes dúbia.

A classificação destes está constantemente a ser alterada, de acordo com os dados que vão sendo recolhidos em diversas escavações arqueológicas em terra e sub-aquáticas.

Em Portugal, principalmente no litoral e ao longo dos principais rios, vão sendo descobertos inúmeros fragmentos deste tipo de recipientes, cuja produção remonta a lugares tão distantes como o Mediterrâneo oriental, o mundo grego, Península Itálica, província Gálica, Tarraconense e, mais próximas, da bacia de Cádiz e norte de África.

Também foram produzidas ânforas em território lusitano, em épocas mais tardias e geralmente relacionadas com o envase de produtos marinhos ou derivados deste. A título exemplificativo, uma das formas mais conhecidas no Noroeste peninsular é a Haltern 70, que se difunde desde Roma à Bretanha, por todo o litoral mediterrânico e atlântico.

Monte Testaccio, Roma. O monte foi formado artificialmente durante o periodo romano, pelo acúmulo de ânforas descartadas nesta área.
Centro Oleiro Romano da Praia do Martinhal

Em Sagres, junto à praia do Martinhal, foi identificado um Centro Oleiro Romano, constituido por 3 fornos que se destinavam à produção de ânforas. Nos ilhéus situados em frente à praia encontraram-se vestígios de cetárias, tanques para salga de peixe.

Anforas em Pompeia
Ânforas em Pompeia
Anforas em Pompeia
Selo
Haltern 70

Haltern 70 são um dos tipos mais comuns de ânforas encontradas no litoral do noroeste da Península Ibérica. Foram assim designadas por terem sido referenciadas pela primeira vez nos níveis augusteos (da época de Augusto) daquela estação.

É uma ânfora vinária originária da Bética e muito comum na Lusitânia.

Incluída do grupo 7-11 de Dressel, constitui na verdade uma forma distinta dentro dele, tendo sido bem diferenciada na sequência dos estudos feitos a partir do naufrágio do Port Vendres II.

O termo Haltern 70 corresponde ao número setenta de um conjunto de peças cerâmicas descobertas até 1908, pelo arqueólogo alemão Siegrfried Loeschcke no Norte da Alemanha.

De acordo com diversos tituli picti encontrados em peças desta forma, documentam-se que não só transportariam vinho, mas também outros produtos; defrutum , [[sapa] (xaropes de vinho), mulsum (vinho cozido), [olivae]] ex defruto (azeitonas em conserva) e muria (preparado de peixe).

Sua capacidade ronda os 30 l.

Tipologicamente, o bordo das primeiras formas caracterizam-se por possuir uma gola alta, recta e aberta, de secção rectangular, ligeiramente comprimida no interior e com o lábio ligeiramente apontado, arredondado na extremidade e na extremidade inferior perfeitamente diferenciado do colo através de um ressalto, com uma ténue linha côncava no interior do contacto.

Pertencem estas peças à época de Augusto, anteriores à mudança da Era.

As asas são geralmente de secção elíptica e apresentam uma canelura longitudinal bem vincada. Nascem sempre sob o bordo, descendo em curva suavemente até ao ombro onde apresentam uma depressão para o apoio do dedo. O corpo é cilíndrico, muito semelhante a alguns fabricos da Dres. 20, o que dificulta a sua identificação em fragmentos muito pequenos.

O fundo é em bico, maciço, preenchido no interior por um recheio característico em forma de calote. Normalmente possuem um engobe fino, da cor da pasta ou mais beige. Nas formas de época tardo-tiberiana observa-se um bordo mais alto, com o quase desaparecimento da gola do bordo. Contudo há um ligeiro espessamento da parede da parte superior. Para esta variante, enquadramo-la em meados do séc. I d.C. (43 - 60/61 d.C.) , podendo chegar aos Flávios.

Cronologia

Cronologicamente, o exemplar mais antigo desta forma de ânfora até ao presente identificada, encontrada no naufrágio de “La Madrague de Giens”, datado de 70-50 a.C., faz recuar o início da sua exportação aos meados do séc. I a.C. Esta forma perdurou até aos Flávios (70-80 d.C.), de acordo com o naufrágio de [Cala Culip IV]] ocorrido em época de Vespasiano e em diversos sítios arqueológicos dessa mesma altura .

A forma Verulamium 1908 pode retratar uma fase muito tardia da produção deste tipo de ânfora fazendo-a avançar a sua produção residual até ao fim do séc. II d.C. Esta forma surge na zona do vale do Guadalquivir onde já foram encontrados fornos. Raramente são encontradas marcas. Ainda está testemunhada na baía de Cádiz, em fornos do centro oleiro de Puente Melchor (Puerta Real).

Esta ânfora apresenta uma difusão bastante ampla em todo o território imperial, desde as penínsulas Itálica e Hispânica, passando pelo norte de África, Gália, e chegando mesmo à Bretanha.

No território português também está bem documentada, em Almodôvar, Alcácer do Sal, no rio Sado, Sintra, Santarém e Conímbriga, e aparece nos castros de Fiães e de Romariz, ambos em Vila da Feira.

No norte de Portugal está bem representada, com cerca de 80% do conjunto de ânforas até hoje encontradas no noroeste, abarcando estações localizadas principalmente no litoral e ao longo das principais artérias fluviais, no interior. Raros são os povoados castrejos do noroeste peninsular que sobreviveram ao câmbio da Era que não mostrem exemplares da Halt. 70.

A sua difusão ao longo da costa mostra a importância e o incremento da navegação costeira e atlântica, chegando a invadir áreas do interior, facilitadas pela navegação dos rios onde chegaram a sítios bem distantes da costa. Outro factor condicionante para esta expansão foi o crescente aumento de segurança das vias terrestres, aliado ao aumento das carreiras comerciais, que ligavam o litoral às principais cidades do interior.

A título exemplificativo, podemos dizer que foram exumados fragmentos desta forma no Castro do Coto da Pena (Caminha) , Castro de Baiza (castro do Guedes ou de Baiza), Castro da Senhora da Saúde ou do Monte Murado (ambos em Vila Nova de Gaia) , Castro do Senhor dos Desamparados (Palmeira de Faro, Esposende) , Castro de São Lourenço (Vila-Chã, Esposende), Castro de Sto. Ovídeo (Fafe) , Castro de Sto. Estêvão da Facha e Sto. Ovídeo (ambos em Ponte de Lima), S. Julião (Vila Verde) , Castro do Barbudo (Vila Verde) , Castro do Santinho/Roques (Barcelos) , Monte Padrão (Sto. Tirso) , Monte Mozinho (Penafiel) , nas cividades de Terroso (Póvoa do Varzim) , Briteiros (Guimarães) , Âncora (Caminha) , e nas citânias de St.ª Luzia (Viana do Castelo) , Oliveira/Roriz (Barcelos) , Citânia de Sanfins (Paços de Ferreira) . Também presente está na villa romana de Lobelhe (Vila Nova de Cerveira, Castelo de Faria (Barcelos, Castelo de Gaia (Vila Nova de Gaia) e em Bracara Augusta. Na área galega, dentro da bibliografia consultada para o efeito encontramos esta forma também disseminada por uma série de castros do litoral, nomeadamente Santa Tecla, Troña e Vigo , entre muitos outros que supostamente possam ter estes recipientes.

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