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Algarve romano

Quando os romanos iniciaram a colonização do Algarve, entre 202 e 139 a.C., já no final da II Idade do Ferro, as populações que encontraram eram muito diferentes das que tinham existido na Idade do Bronze Final (séculos XII a VIII a.C.).

As antigas sociedades agro-pastoris tinham desenvolvido a exploração mineira e o comércio, encetando amplos e continuados contactos com povos mais desenvolvidos, a nível técnico e cultural, que as influenciaram.

Nesse contexto, a partir do século VIII ou VII a.C., os fenícios assumiram um papel determinante com o estabelecimento de entrepostos comerciais a nível do litoral, principalmente em Silves, onde desenvolveram uma cultura de influências orientais.

A zona de Pêra era, então, parte integrante das terras dos cónios, vizinhas dos cinetes, turdetanos, celtas e tartéssicos. O seu território estendia-se até ao Guadiana e na costa não faltavam feitorias fenícias, povo com quem mantinham pacíficas relações comerciais e de vizinhança.

No território cónio viriam a instalar-se os cartagineses que, por intermédio de Aníbal Barca, entre 221 e 218 a.C. fundaram Portus Hannibalis, nas proximidades de Portimão ou de Alvor.

Com a entrada dos romanos na Península Ibérica, a partir de 218 a.C., a sua presença afirmou-se rapidamente, principalmente após 206 a.C., com a rendição de Gades a Roma, que marcou o fim do domínio cartaginês peninsular. Em 202 a.C. já os romanos estavam no Alentejo e, rapidamente, chegariam ao Algarve.

Embora o território de Pêra esteja associado aos instrumentos de pedra lascada e polida, ao megalitismo do Neolítico e aos ídolos de calcário do Calcolítico, na actual área da freguesia não há vestígios de qualquer aglomerado populacional pré-romano. No entanto, é possível considerar a hipotética existência de um primitivo povoado de Alcantarilha com origem numa discutível fortaleza no outeiro onde se desenvolveu aquela povoação, que consistiria num castro lusitano na transição do Neolítico para o Calcolítico.

Por essa zona teriam passado fenícios, gregos e cartagineses, mas seriam os romanos a conquistar a fortaleza, por volta de 198 a.C., transformando-a numa base militar de ocupação, servida por um porto marítimo na foz da ribeira, também ele muito discutível, onde mais tarde viria a surgir Armação de Pêra. Se a existência dessa primeira fortaleza, ou castro lusitano de Alcantarilha, se situa somente no campo das hipóteses, porque dela não há (ainda) vestígios, pelos mesmos motivos e por falta de outros indícios convincentes também partilhamos da opinião de que é errado atribuir a origem de Pêra ou da própria fortaleza de Armação de Pêra a alguma presença cartaginesa.

A romanização desenvolveu-se um pouco por toda a área do actual concelho de Silves, onde os colonos romanos, além de se fixarem em aglomerados urbanos, amantes do campo e cultores da agricultura que eram, espalharam-se pelas colinas e ergueram luxuosas villae rurais nas terras baixas onde desenvolveram o cultivo dos cereais, da vinha, da oliveira, das árvores de fruto.

Deixaram vestígios da sua presença na zona de influência de Pêra, com destaque para os achados de S. Lourenço do Palmeiral e Terras Velhas, onde se encontraram fragmentos de mosaicos e terra sigilata que pressupõem a existência de uma villa.

Salienta-se ainda as necrópoles identificadas em Centieiras e no Morgado das Taipas, além de outros vestígios, designadamente em Alcantarilha, Serro da Lebre, Algoz, Areias, Poço dos Mouros, Torreão Velho e Amoreira. [Fragmentos de cerâmica romana (terra sigilata), Terras Velhas. Col. partic. Manuel Mendonça (J. V. Reis, 2004)]

Os romanos implementaram as trocas comerciais, fomentaram a circulação da moeda, trouxeram o arado de madeira, as forjas, os lagares, os aquedutos, as estradas e as pontes. A eles ficou provavelmente a dever-se a primeira ponte que ligou as duas margens da ribeira de Alcantarilha.

Além do desenvolvimento agrícola, investiram em indústrias como a salga de peixe, nomeadamente na costa de Pêra, onde, no século XIX, Estácio da Veiga poderá ter identificado «na sua límpida praia os celebres tanques romanos de salga de peixe». De acordo com o investigador oitocentista, sob o areal da praia deveriam estar as ruínas de uma povoação romana. Estácio da Veiga não as viu; porém, socorreu-se de testemunhos de terceiros que lhe falaram de «vestígios de grandes construcções, que o areal hoje encobre».

Inclinámo-nos contudo, especulando sobre a sua existência, para uma hipotética villa situada algures entre os estuários das ribeiras de Pêra / Alcantarilha e Espiche, ligada ao fabrico do garum ou conservas de peixe, destinadas ao consumo e à comercialização.

Em 1841, João Baptista da Silva Lopes, contemporâneo de Estácio da Veiga, confirma que em Pêra de Baixo (Armação de Pêra), «em algumas escavações que se tem feito na aldeia, que fica na mesma praia, encontrão-se tinas de alvenaria, e vestígios de outras, em que se fazia a salga do atum», mas nada diz acerca da pseudo-povoação. [Ânfora romana, Museu Municipal de Arqueologia de Silves.

Era em utensílios deste tipo que se fazia o transporte do garum produzido no litoral algarvio (J. V. Reis)] Após a conquista definitiva da Península Ibérica, por Augusto, o império romano viveu um período de cerca de duzentos anos de paz que permitiu um grande desenvolvimento urbano e económico até meados do século II d.C., época em que começam as primeiras perturbações com o início das invasões bárbaras que, juntamente com guerras civis e levantamentos populares viriam a marcar os séculos seguintes que conduziram à queda do império.

Em 624, os visigodos ocupavam toda a Península, tendo o seu domínio perdurado até à invasão do Islão em 711. Entre o fim do império romano e os primeiros séculos da Idade Média, nada se sabe acerca de Pêra, tanto no que respeita à existência do seu aglomerado como em relação ao topónimo. Mas quando os muçulmanos iniciaram a ocupação do Algarve e baptizaram o povoado de Alcantarilha em referência à pequena ponte de origem romana que existia sobre a ribeira epónima, dando-lhe o nome de al-qantarâ (ponte, viaduto), palavra árabe que no seu diminutivo românico, moçarabe, terá evoluído para Alcantarilha, que significa ponte pequena ou lugar da ponte pequena, é possível que já existisse, nas vizinhanças daquela localidade, uma fonte ou um poço (bi’ra, em árabe) de onde teria resultado, por latinização, o topónimo Pêra, identificado com o sítio do poço, no qual se abastecia a população e do qual viria a surgir, posteriormente, a lenda da Moura de Pêra.

Do mesmo modo, reminiscências mouriscas levam-nos a Benagaia e Mesquita, outros topónimos da freguesia. Para além destas sugestões, a verdade é que não se sabe quase nada acerca do passado medieval de Pêra, tanto em época árabe como no início do domínio cristão, a partir de meados do século XIII, integrado que passou a estar o seu território na freguesia de Alcantarilha até ao ano de 1683. No entanto, é indiscutível a antiguidade da primitiva aldeia, cujas origens estão ligadas à pesca e às armações medievais da Pedra da Galé.

 
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