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A agricultura

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Mó neolítica. Proveniência: Gavà

A agricultura teve o seu berço na zona do Crescente Fértil, região hoje ocupada, entre outros, pelo Iraque, Irão e Egipto e onde surgiram as primeiras civilizações. Os povos semi-nómadas das estepes e das franjas do deserto da Península Arábica e da Síria, que se fixaram nas margens férteis dos rios Tigre, Eufrates e Nilo, contribuíram para converter esta região na mais rica e próspera da antiguidade e estiveram na génese daquelas primeiras civilizações.

Até então, o homem era caçador-recolector (etapa do veja páginaMesolítico) mas já existiam acampamentos sedentárias baseadas ainda na caça e na recolha de frutos silvestres, raízes e cereais bravios, os quais predispuseram esses caçadores para a produção alimentar e a criação de gado.

Há cerca de 10.000 anos ocorreu a transição da caça-recolecção para a recolha dos cereais bravios e há 8.000 anos atrás os primeiros povos sedentários estavam já dependentes da cultura dos primeiros cereais e dos primeiros animais domesticados.

O aparecimento da agricultura no Crescente Fértil resultou de diversos factores, como o clima, o relevo, a fauna, a flora e o desenvolvimento das sociedades humanas, dos quais merecem destaque os seguintes aspectos:

  1. Esta região situa-se nos limites da zona climática Mediterrânica que se caracteriza por Invernos amenos e precipitações moderadas concentradas nos meses mais frios e coincidência da época mais quente do ano com o período mais seco. Este clima favorece plantas que resistem à estação seca e que são capazes de reiniciarem rapidamente o seu crescimento após a queda das primeiras chuvas. Permite, também, grandes variações entre estações e de ano para ano, favorecendo as plantas anuais, como é o caso das gramíneas.
    Considerando que 32 das 56 espécies de gramíneas que possuem maiores sementes ocorriam no Crescente Fértil, a tarefa de selecção das melhores espécies efectuada pelo homem ficou facilitada.
  2. Nesta região do Globo existem grandes diferenças altitudinais e orográficas numa área relativamente reduzida. O Mar Morto, por exemplo, encontra-se abaixo do nível médio das águas do mar, enquanto que os Montes Zagros apresentam uma altitude de cerca de 5500m. Este cenário permite uma grande diversidade de habitats, aos quais está inerente uma grande variedade de plantas (matéria prima para a domesticação das primeiras culturas) e a possibilidade de realizar várias colheitas ao longo do ano.
    A elevada biodiversidade verificou-se, também, ao nível da fauna selvagem, ocorrendo então um grande número de espécies animais que foram percursoras de muitos dos actuais animais domésticos, como a ovelha, a vaca, a cabra e o porco.
  3. As mudanças climáticas verificadas no final do Plistocénico, há cerca de 10-12 mil anos, que resultaram no recuo dos gelos e na migração dos biomas para Norte, associada à elevada pressão humana exercida sobre os animais selvagens através da caça, resultou na redução da disponibilidade de alimentos obtidos a partir da natureza.
  4. Estas mudanças climáticas provocaram, também, o aumento da área de gramíneas bravias (cevada, trigo), aumentando o número de espécies disponíveis para a génese das primeiras culturas domesticadas.
  5. Desenvolveu-se, também, uma tecnologia para a recolha, o processamento e o armazenamento dos alimentos, como por exemplo: foices com lâminas de sílex fixas em cabos de madeira ou osso para colher cereais, cestos para transporte de cereais, almofarizes, pedras de moagem para a debulha e poços de armazenagem subterrâneos.
  6. O aumento da densidade populacional obrigou ao incremento da produção alimentar e vice-versa

. As primeiras culturas domesticadas (trigo, cevada, ervilhas e lentilhas) desenvolveram-se a partir de plantas bravias que revelavam características que motivaram a sua preferência por parte do homem. Destas características destacam-se: i) a comestibilidade, ii) a abundância, iii) o fácil cultivo, iv) o rápido crescimento, v) a elevada taxa de auto-polinização e vi) a ocorrência rara de polinização cruzada entre indivíduos da mesma espécie ou espécies aparentadas. A auto-polinização permite a transmissão às gerações seguintes das características pelas quais foram seleccionadas (sabor, valor nutritivo e sementes de dimensões razoáveis). Por outro lado, a possibilidade de ocorrência de fenómenos de polinização cruzada permitiu o aparecimento de novas variedades com características úteis e que por isso foram seleccionadas positivamente pelo homem.

Um desses exemplos terá sido o trigo duro, planta utilizada hoje em dia em larga escala pela indústria de panificação. O conjunto de alimentos de origem vegetal cultivado pelo homem era equilibrado do ponto de vista nutritivo. A grande variedade de cereais seleccionada constituía a principal fonte de hidratos de carbono e as leguminosas, juntamente com os primeiros animais domésticos, supriam as necessidades proteicas.

Os animais forneciam, também, lã, couro — e auxílio nas tarefas agrícolas. Estes factores favoreceram o estilo de vida sedentário face à caça-recolecção, pois a referida selecção de alimentos rapidamente se tornou mais abundante e nutritiva do que o pacote alimentar do modo de vida anterior.

Esta agricultura, apesar de primitiva e intuitiva, assentou numa selecção artificial que conduziu a uma evolução dirigida e não natural. O homem, empiricamente, induziu o aparecimento de novas variedades, o que apenas foi possível porque as espécies ancestrais apresentavam estruturas genéticas semelhantes. Desde o seu aparecimento até à revolução industrial, a agricultura sofreu transformações pouco significativas.

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