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Os primeiros alfabetos em território português
É para o século vi a.n.E. que se data o uso dos
primeiros sistemas de escrita com base fonética na Península
Ibérica.
Este facto é de importância, pois em muitas outras
etapas de evolução Pré-História >
História, o uso da escrita acompanha o desenvolvimento do urbanismo, da
economia mercantil e da plena evolução das classes dirigentes e
elitistas.
Contudo, em território ibérico, estes processos
foram iniciados já muito antes, no Calcolítico (3.000
2.000 a.n.E.), mas não foram acompanhadas pelo aparecimento de um
sistema de escrita. Esta teve que ser importada, muito mais tarde, do
Mediterrâneo.
A chamada Escrita do Sudoeste ou Tartéssica ou Sudlusitana,
da I. Idade do Ferro no Sul de Espanha e Portugal, foi desenvolvida pelos
Tartessos, nome pelo qual os Gregos conheciam a
civilização que se desenvolveu nas zonas das actuais
regiões da Andaluzia, da Extremadura espanhola, do Baixo Alentejo e do
Algarve.
As inscrições conhecidas foram maioritariamente
achadas nas áreas mais acidentadas entre o Alentejo e Algarve (em
especial a Serra do Caldeirão), no território das nascentes dos
cursos de água desta região (Sado, Mira, Arade) e dos três
subsidiários do Guadiana (ribeiras de Oeiras, Vascão e Foupana).
Contudo, devemos salientar que desde as prospecções
arqueológicas do casal de arqueólogos alemães Georg e Vera
Leiser, nunca mais se fez uma prospecção e
inventarização arqueológica sistemática em
Portugal.
Os glifos do alfabeto da Escrita do Sudoeste (veja tabela)
são claramente derivados de escritas fenícias. O sistema teria
basicamente 27 signos, o número que se regista num monumento aparecido
em Espanca (Castro Verde, Beja); esta inscrição mostra um
abecedário gravado por alguém que possuía destreza e outro
imitado, por baixo, por um aprendiz.
Os glifos são semelhantes aos alfabetos fenícios.
Nos conjunto de glifos de Espanca, os primeiros catorze tem formas e valores
fonéticos idênticos. Os cinco glifos que se seguem, embora
apresentem um traçado semelhante, podem corresponder a fonemas
diferenciados. Os últimos oito consideram-se relativamente
independentes, adoptados para suprir a falta de glifos que completassem o
sistema.
Sem contar com as variantes de algumas letras, conhecemos hoje
cerca de 40 glifos diferentes. O que é que nos transmitem? A escrita,
analisada por arqueólogos diletantes, foi considerada
«complexa» e «indecifrável», mas o facto
é que tem sido decifrada, pouco a pouco; a sua leitura é hoje
parcialmente possível.
Conhecemos mais de oitenta textos, muitos que são
fragmentos, quase todos gravados em placas do xisto que abunda na área
da sua difusão.
Podemos «ler» uma boa parte das sequências
gravadas nas inscrições, mas é problemático o
conteúdo. O que significam?
Pouco sabemos sobre a(s) língua (s) em que estão
escritas. Sendo a linguagem desconhecida, as dificuldades de
interpretação dos textos são grandes, agravadas por ser
díficil isolar palavras, pois quase sempre faltam separadores.
Contudo, já temos um primeiro repertório de
sequências de glifos, que podem corresponder a «palavras».
Já se pode sugerir correspondências com nomes conhecidos de origem
indo-europeia. Um conjunto de inscrições funerárias
apresenta no final uma sequência de glifos, com ligeiras variantes.
Será uma fórmula do tipo «aqui jaz»?
A comparação com línguas conhecidas
fundamenta esta hipótese, e é uma base para a inclusão dos
textos do idioma representado nas línguas indo-europeias. Pelo
âmbito geográfico, admitiu-se a ligação com
vestígios toponímicos da região.
Neste contexto se integram, por exemplo, os nomes de lugar
terminados em -ipo (a que pertence a cidade andaluza de Ventipo, mas
também Olisipo, Lisboa) e em -oba l-uba (onde se inclui o nome de Faro,
Ossonoba, bem como o de Corduba).
A Escrita do Sudoeste tem uma estrutura semi-silábica.
À semelhança das outras escritas paleohispânicas, apresenta
glifos com valor silábico para as oclusivas, e glifos com valor
alfabético para o resto das consoantes e vocais.
Do ponto de vista da classificação dos sistemas de
escrita, não é nem um alfabeto, nem um silabário, mas sim
uma escritura mista, um semi-silabário. A característica
distintiva desta escrita é a sistemática redundância
vocálica dos signos silábicos, fenómeno que nas outras
escritas paleohispânicas é apenas residual.
Este aspecto, descoberto por Ulrich Schmoll, permite classificar a
maior parte dos glifos desta escrita em silábicos, vocálicos e
consonânticos.
Jesús Rodríguez Ramos, num artigo derivado da sua
tese de doutoramento, explica o carácter da Escrita do Sudoeste:
«De las escrituras paleohispánicas de las cuales tenemos un
mínimo de datos para poder trabajar con ellas, sólo nos podemos
plantear la sudlusitana como la más próxima al modelo fenicio. La
forma de sus signos es la más similar al fenicio (más apartada
está la íbera meridional y mucho más la levantina) y es la
más antigua documentada (al menos desde los siglos viv
a.C.).»
«El funcionamiento de la escritura sudlusitana no se conoce
a la perfección, pero hay algunos aspectos claros. Se trata de un
alfabeto redundante, no algún signario prefenicio. Un semisilabario, en
el que de forma paralela al íbero se dispone de cinco signos para cada
uno de los tres órdenes de consonantes oclusivas (verosímilmente
velar, dental y labial); correspondiéndose en principio cada uno al uso
exclusivo ante un signo vocálico específico. La apariencia formal
de la escritura es como si a cada silabograma del íbero se le
añadiera sistemáticamente el signo de la vocal ya incluida en
dicho silabograma (ba + a, be + e, etc.) pero, desde un punto de vista
estructural y funcional, corresponde a un alfabeto.»
«Con todo, las inscripciones que han llegado hasta nosotros
no siempre se atienen ortodoxamente a la regla general, sino que se aprecian lo
que parecen ser simplificacionesy evoluciones diversas en un grupo minoritario;
además de unas pocas inscripciones que utilizan formas de signos
atípicas y que deben corresponder a tradiciones epicóricas, por
lo que son de difícil clasificación y complican sobremanera el
establecimiento de regularidades a la hora de analizar el material.» Fim
da citação.
O Museu em Almodôvar
Uma estela funerária com uma das mais longas
inscrições da Escrita do Sudoeste é um dos tesouros do
Museu da Escrita do Sudoeste em Almodôvar (Baixo Alentejo, Portugal).
Este museu tem no seu pequeno acervo importantes registos da mais antiga
escrita da Península Ibérica.
O facto que a sessão solene de inauguração,
foi presidida pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, só pode
ser considerado macabramente irónico, se atendermos ao triste estado de
abandono em que continua o Património pré-histórico em
solo português.
O Museu abriu primeiro no âmbito das Jornadas Europeias do
Patromónio, 2007; entretanto abriu ao público em geral.
Está aberto das terças aos sábados, instalado no antigo
Cine-Teatro municipal, no centro histórico de Almodôvar.
Expõe alguns dos mais importantes achados
arqueológicos epigrafados com glifos da Escrita do Sudoeste.
Amílcar Guerra, arqueólogo pela Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, é o coordenador científico do projecto.
Segundo Guerra, a instalação do Museu de
Almodôvar justificar-se-ia pelo facto que este concelho é uma das
áreas da Península Ibérica com uma das mais importantes
concentrações de registos.
Mas não devemos esquecer que existem estelas importantes no
Museu de Beja, no Museu de Badajoz e até em museus mais pequenos, como
em Loulé e Olhão.
As estelas mais importantes foram agora transferidas para
Almodôvar. Por que razão? O Museu da Escrita do Sudoeste inicia-se
com 20 peças, entre elas um espólio permanente de 16 estelas
descobertas no núcleo arqueológico de Almodôvar.
Este conjunto «deverá ser variado com a
exposição de outras estelas descobertas fora do núcleo de
Almodôvar, que são também muito interessantes e
diversificadas», assim Amílcar Guerra.
As estelas do concelho de Almodôvar fazem parte das 75
estelas descobertas em território português e de um total de 90
conhecidas na Península Ibérica.
A Estela de São Martinho, achada em São Marcos da
Serra, no concelho algarvio de Silves é notável pelas suas
dimensões, e pela extensão do seu texto, com cerca de 60 glifos
identificados, uma das inscrições mais extensas da Escrita do
Sudoeste.
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