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Francisco de Gouveia Martins Sarmento (1883-1899)

Arqueólogo e escritor português.

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Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, dedicou-se com grande paixão ao estudo da arqueologia. Fez a exploração intensa e metódica das Citânias de Briteiros e Sabroso, perto de Guimarães (1874-1879), junto à Casa da Ponte, onde morou.

Cultivou também a poesia e colaborou em revistas e jornais científicos.

Nasceu em Guimarães, no seio de uma família abastada. Fez o liceu num colégio do Porto e, em 1848, com quinze anos, foi para Coimbra onde estudou Direito. Aí se envolveu na boémia estudantil coimbrã, sendo famoso o seu pouco interesse pelo conteúdo dos livros de leis. Jamais fez uso do seu curso.

Da curiosidade com que desde criança percorria uma povoação cujas origens se perdiam no tempo, aliada ao seu interesse pela História, viria a desenvolver-se a inclinação de Sarmento por desvendar o passado.

No seu estudo, iniciado quando já contava mais de quarenta anos de idade, investiria a sua fortuna, tornando-se um grande arqueólogo português e adquirindo um renome científico que atravessou fronteiras e teve reconhecimento internacional.

Alimentou o projecto de uma obra grandiosa: a descrição da arqueologia de Entre Douro e Minho. Projecto nunca concretizado, mas de que deixou milhares de páginas de notas manuscritas onde expõe os materiais recolhidos nas suas inúmeras expedições e as informações que recebia de todo o lado. Em grande parte ainda inéditos, estes apontamentos constituem um imenso manancial de informações arqueológicas.

Com a sua publicação sistemática, serão trazidos a público instrumentos fundamentais para a investigação dos vestígios mais remotos da ocupação humana do Norte de Portugal.

Actividade como fotógrafo

Foi igualmente importante a sua actividade como fotógrafo, iniciada em 1868. Pioneiro da fotografia de carácter científico, deixou centenas de negativos em vidro, na sua maior parte de temática arqueológica.

A importância da obra de Martins Sarmento foi reconhecida ainda em vida pelos seus conterrâneos. Em 1882, um grupo de vimaranenses ilustres, em homenagem ao sábio arqueólogo, criou a Sociedade Martins Sarmento, que erigiria como seu principal propósito o fomento da instrução popular, desenvolvendo desde logo uma importante acção de dinamização cultural.

Quando, em 1875, Martins Sarmento iniciou o estudo da Citânia de Briteiros, o universo dos castros era uma incógnita e a arqueologia portuguesa dava os primeiros passos, limitada ao sul do país, onde os elementos da Comissão Geológica — Pereira da Costa, Carlos Ribeiro e Nery Delgado — se dedicavam a escavar grutas, concheiros e dólmenes.

Existia, no norte de Portugal uma tradição erudita, sustentada por antiquários, interessados em desvendar os enigmas encerrados nas ruínas das “cidades mortas” e em registar os achados, designadamente as epigrafes, que ocorriam, aqui e acolá, de quando em quando.

Esse saber mantinha-se na esfera literária. As imagens eram raras, embora deva recordar-se os excelentes desenhos que ilustram a obra impressa de Jerónimo Contador de Argote (primeira metade do século XVIII), ou os manuscritos de Távora e Abreu ou, ainda, as Memórias de Anciães elaboradas pelos reverendos J0ã0 Pinto de Morais e A. de S. Pinto Magalhães.

Os desenhos das pinturas pré-históricas do Cachão da Rapa ou dos penedos epigrafados do santuário romano de Panóias, constituem alguns dos primeiros esboços de um registo distinto da escrita, em matéria de arqueologia. Este registo, o desenho, irá manter-se e generalizar-se, ao longo da história da arqueologia, sendo hoje uma preciosa e quotidiana ferramenta, seja em campo seja no gabinete.

Nas revistas científicas as estampas com figuras são uma parte indispensável de qualquer artigo ou comunicação. No entanto, para os meios técnicos da época — séculos XVIII e XIX — os desenhos e as gravuras resultantes eram um processo oneroso e lento.

Na segunda metade do século XIX, uma nova modalidade de registo, é aplicada em trabalhos arqueológicos: a fotografia. No nosso país, Martins Sarmento é um dos pioneiros na utilização deste novo método de registo.

Aliás a divulgação da Citânia de Briteiros está intimamente associada à fotografia. Na verdade, será através de dois álbuns fotográficos, que o arqueólogo vimaranense vai divulgar os resultados das suas pesquisas.

Os álbuns, acompanhados por uma breve introdução e devidamente legendados, foram remetidos ao Instituto de Coimbra, à Sociedade de Geografia de Lisboa e à Real Associação dos Architectos e Archeologos Portugueses. Nas sessões destas academias, os eruditos folheiam as páginas dos álbuns e deparam com os sinais de um novo universo científico, um olhar sobre o passado: imponentes panos de muralhas, ruínas de casas circulares e rectangulares erguidas em excelente aparelho granítico, pedras lavradas com misteriosas decorações, objectos de bronze e ferro, fragmentos de olaria.

As imagens operadas, reproduzidas e legendadas por Francisco Martins Sarmento não ilustravam um discurso explicativo das ruínas postas a descoberto no Monte de Briteiros e no Castro de Sabroso. As fotografias formavam um feixe de perguntas. Para responder a esse conjunto de interrogações organizou-se no ano de 1887, em Guimarães, a primeira reunião científica de arqueologia, celebrada em Portugal. Só a partir de então se começou a organizar um discurso sobre o mundo dos castros, conhecimento que se irá construindo progressivamente ao longo de décadas. Entretanto, as fotografias produzidas por Martins Sarmento tiveram longa vida e difundiram-se pela Europa. Em 1882 figuravam entre as estampas do volume das Actas da IX Sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, realizado em Lisboa em 1880.

Em 1888 eram impressas num volume que será um ponto de referência obrigatório no conhecimento europeu sobre o passado longínquo: o Manual de Pré-História de Émile Cartailhac, um dos estrangeiros que participara na excursão à Citânia de Briteiros, realizada no âmbito do mencionado Congresso.

As fotografias da autoria de Martins Sarmento, ora reproduzidas de novo, mais de um século depois de terem sido operadas, estiveram nas raízes da formação da arqueologia científica em Portugal.

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Sarmento viria a legar a esta instituição os seus bens, nomeadamente os milhares de livros da sua biblioteca e o seu espólio científico, constituído em grande parte por peças arqueológicas que tinha adquirido com a sua fortuna pessoal.

Morreu em 9 de Agosto de 1899, deixando grande parte da sua obra inacabada e inédita.

Publicações

Entre as suas obras contam-se: Os Argonautas; Ora Marítima; Lusitanos, Lígures e Celtas.

Links — Museu da Cultura Castreja

No Museu da Sociedade Martins Sarmento em Guimarães conserva-se uma grande parte dos objectos arqueológicos por si encontrados

O Museu da Cultura Castreja é um dos mais antigos museus arqueológicos portugueses. A sua primeira instalação data de 1885 e o seu núcleo central foi constituído com o espólio que pertenceu à colecção particular de Francisco Martins Sarmento, que o arqueólogo doou à instituição.

A Sociedade Martins Sarmento é proprietária e/ou administradora dos seguintes bens culturais imóveis classificados:

  • Claustro gótico do Convento de São Domingos, em Guimarães (Monumento Nacional).
  • Citânia de Briteiros (Povoado fortificado de grande dimensão, em S. Salvador de Briteiros, Guimarães – Monumento nacional).
  • Castro de Sabroso (povoado fortificado em S. Lourenço de Sande, Guimarães – Monumento Nacional)
  • Penedo de Cuba e Gruta de Coriscadas — sepultura entre penedos (em Soalhães, Marco de Canaveses -Imóvel de Interesse Público)
  • Forno dos Mouros (balneário em Carvalhos, Barcelos - Imóvel de Interesse Público)
  • Laje dos Sinais (penedo com gravuras rupestres no Monte da Saia, em Barcelos - Imóvel de Interesse Público)
  • Anta da Pêra do Moço (monumento funerário na Guarda - Imóvel de Interesse Público)
  • Mamoa de Donai ou Tumbeirinho (monumento funerário em Bragança - Imóvel de Interesse Público)
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